quinta-feira, 7 de maio de 2009

O sorriso de Mona Lisa

Há entrevista a Marco António Costa para ler na edição desta semana do Matosinhos Hoje. Um proto-candidato do PSD à Câmara de Matosinhos que parece começar a afastar-se dessa condição. Ou, para citar o próprio: "Pela enésima vez, não sou candidato."
Mas o que mais nos diz o homem que, para além de "vice" da Câmara de Gaia, lidera a Distrital laranja? E que portanto terá palavra decisiva na escolha do litigante social-democrata? Diz, por exemplo, que Agostinho Branquinho foi convidado mas não avança. Que Paulo Morais "é um activo político importante do partido". E, ainda, que não pode responder quando lhe perguntam se o cabeça de lista será algum dos actuais vereadores.
Uma verdadeira Mona Lisa, portanto. De sorriso enigmático. A gente bem olha e bem procura ler nas entrelinhas, mas o rosto e o discurso são inexpressivos.
Pelos vistos, a decisão ou o anúncio ficam lá mais para o fim de Maio. Ou porque ainda não há candidato, ou porque dá jeito que os dois principais rivais se vão queimando em lume brando. Prova disso, as muitas linhas que lhes dedica Marco António. Apenas alguns exemplos.
Sobre Narciso: não é propriamente um menino do coro; não deixa Guilherme Pinto governar a Câmara; candidata-se por révanche; é o criador a tentar anular a criatura.
Sobre Guilherme: foi levado ao colo pelo Governo; não foi presidente da Câmara, foi regedor; viveu permanentemente pendurado na fralda da camisa do primeiro-ministro; tem a percepção de que a Câmara está perdida.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Pagar para correr

"A Área Disciplinar de Educação Física vem informar que o Torneio de Atletismo previsto no Plano de Actividades da Escola para os próximos dias 5 e 6 de Maio não se irá realizar por decisão desta área disciplinar. Esta decisão sustenta-se no facto de a Matosinhos Sport, Empresa Municipal de Desporto, cobrar este ano lectivo aluguer de instalações com o valor de 40 cêntimos por aluno por dia mais IVA, facto que consideramos inaceitável e que a escola não pode comportar"



Esta nota, que "assassina", em meia duzia de linhas, a política educativa e desportiva da nossa Câmara, chegou-me às mãos esta semana. É proveniente da E.B. 2,3 de Leça da Palmeira.
Ficamos a saber, entre outras coisas, que temos uma Empresa Municipal de Desporto que trata as escolas como se elas fossem empresas. E portanto trata os alunos como se fossem clientes. Mais moderno do que isto não há.
Estamos perante uma inversão das políticas educativas de Matosinhos. A partir de agora, em vez de ser a Câmara a financiar as escolas, são as escolas a financiar a Câmara. Sim, porque as despesas são mais que muitas, nomeadamente para pagar bons salários e bons carros aos administradores das empresas municipais.
Eu proponho, aliás, algumas medidas moralizadoras para além desta. Por exemplo, 20 cêntimos por aluno e por dia pela utilização dos recreios das escolas do primeiro ciclo. Isto para os alunos do escalão A, porque para os do B seria de 30 e para os "ricos" de 40 cêntimos. Já para consultar um livro em qualquer biblioteca escolar, 50 cêntimos. E por cada cinco minutos de utilização de um computador com ligação à internet, um euro (com desconto de 50% se for usado um Magalhães).

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Louçã, o vice?

Se há líder que se destacou neste cenário de crise foi Francisco Louçã. Vão longe os tempos em que se criticava no líder do Bloco de Esquerda um discurso que misturava o tom de seminarista com propostas radicais e anacrónicas. O sistema financeiro entretanto desabou, arrastando a chamada economia real, e com ele noções até então sagradas como mercado livre e liberalismo.
De repente, o capitalismo ficou parecido com a selvajaria para que antes alertava Louçã. Os vigaristas do off-shore, os banqueiros, os especuladores das bolsas, os donos das grandes fortunas, que faziam parte do léxico "simplório" do líder bloquista - e, vá lá, às vezes dos comunistas e de alguns socialistas - passaram a fazer parte do discurso global. E assim um seminarista aborrecido transformou-se, também de repente, num economista brilhante e num político visionário.
Restam, aliás, poucas dúvidas de que, mesmo sem estar no Governo, Francisco Louçã e o seu Bloco há meses que influenciam as políticas governativas. Provavelmente já poucos se lembram que o partido que ainda tem o Socialista no nome era apontado, há um ano atrás, pela generalidade dos analistas, como um exemplo de ponderação centrista, não deixando que a prática e o discurso lhe fugissem para a esquerda. Alguns meses de taxa de desemprego a subir, de PIB a diminuir e de pânico a instalar-se, foram suficientes para regressar às origens socialistas. E nos últimos meses lá fomos assistindo à apropriação, ainda que mitigada, de algumas das bandeiras do Bloco de Esquerda.
Talvez José Sócrates, que é um político sem ideologia, mas arguto e decidido, tenha percebido o que agora as sondagens mostram, nomeadamente a que hoje publicamos no JN: o Bloco de Esquerda sobe de forma aparentemente sólida e com uma força suficiente para ser ele, e apenas ele, o partido que garante a possibilidade de somar uma maioria parlamentar que sustente um Governo.
Parta-se do princípio que o Bloco Central é uma realidade afastada - o único que sonhará com isso será, talvez, Cavaco Silva - e olhe-se para os números: o PSD sobe, mas pouco mais do que desce o CDS. Os dois juntos ficam demasiado longe do PS. O CDS, aliás, está cada vez mais perto de voltar a transformar-se no "partido do táxi" (quando o seu número de deputados cabia dentro de um carro de aluguer), ou ainda menos do que isso, dois ou três deputados inúteis. O PCP não é capaz de conquistar o voto de protesto e mantém a sua base eleitoral habitual, ultrapassado pela dinâmica menos rígida e o discurso mais eficaz dos bloquistas. Sobram estes, com um grupo parlamentar provavelmente bem maior, para ajudar a sustentar um Governo liderado pelo PS.
O problema é: sendo este raciocínio lógico e sustentado pelas sondagens (veremos como será com os resultados a sério), alguém consegue imaginar um Governo com Sócrates a primeiro-ministro e Louçã a vice?
(*) Comentário originalmente publicado no JN desta segunda-feira